Deitou-se, na tentativa de escapar de tudo, do ciclo de repetições vazias, da tapeçaria sem bordados. No sonho, sempre bela adormecida. A vida, essa sucessão de escolhas em que todas parecem erradas, já não é um campo fértil para decisões.
Dizem que foi enfeitiçada. Que um destino cruel a lançou ao sono. Tolice. Dormir foi a decisão mais lúcida que já tomou. Viver cansa. Ouvem-se vozes demais, exigências sem fim, rostos que não dizem nada. Gente nasce e morre sem entender que a verdadeira graça está em fechar os olhos para acordar por alguns segundos até a próxima noite.
Antes disso? Desfile de tolices. Sentar-se na ponta da cadeira, mastigar devagar, acenar para estranhos. Aguardou pacientemente o momento em que não precisaria mais participar da salada e jantar.
Subiu à torre sem hesitar. O pó no chão, o silêncio das coisas esquecidas. Lá estava a roca, promessa de um fim digno e sem morte. Tocou. Pequeno corte, instante preciso, libertação. Nenhuma dor, só o prazer de encerrar uma rotina sem sentido. Nenhum príncipe, nenhuma cerimônia. O ronco profundo, encharcado de frio com coberta.
Porém, sempre aparece alguém a cavalo, suado, arfante, deus, virgem, santo decidido a salvar o que não precisa de salvação. Veio como um assaltante de descanso. Tocou seu rosto, pronunciou seu nome com solenidade. Um beijo repulsivo. Ela acordou. Raiva imensa. Pouco importava o brilho da armadura, o destino, a profecia. Ela queria dormir. Queria nunca mais abrir os olhos que não aprenderam a dormir.
Mão firme no punhal. Um golpe exato, sem hesitação. Sangue quente, corpo desmoronando. Futuro rei no reino dos mortos. Olhos arregalados, sem entender o erro. Morreu surpreso, como se nunca lhe tivesse ocorrido que alguém pudesse rejeitar uma vida cheia de enredos previsíveis.
Ela deitou-se novamente. Desta vez sem interrupções. Nada de príncipes, finais gloriosos ou moral da história. Silêncio. Descanso.
Inventarão versões, dirão que ela viveu aventuras, que a redenção venceu. Mas ela? Ela dormiu. E foi suficiente. E eu? Eu também, bela adormecida.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.